A reforma tributária aprovada no Brasil introduz transformações relevantes na estrutura de tributação sobre o consumo, especialmente com a criação do IBS e da CBS. No entanto, um dos pontos menos explorados nas análises iniciais é o impacto sistêmico do chamado split payment.
Embora apresentado como instrumento de eficiência arrecadatória e redução da inadimplência, o mecanismo altera significativamente a dinâmica financeira das empresas.
O que é osplit payment?
O split payment consiste na segregação automática do tributo devido no momento da liquidação da operação. Ao realizar uma venda ou prestação de serviço, o valor correspondente ao imposto é destacado e direcionado diretamente ao ente arrecadador, enquantoo fornecedor recebe apenas o valor líquido.
Sob a perspectiva fiscal, o modelo aumenta a segurança da arrecadação. E sob a perspectiva empresarial, altera a gestão do caixa.
O impacto estrutural no capital de giro
Historicamente, muitas empresas operam com base no valor bruto das receitas, utilizando o intervalo temporal entre o recebimento e o recolhimento do tributo como parte do ciclo financeiro.
Com o split payment, esse intervalo tende a desaparecer. Os principais impactos incluem:
- Redução da liquidez operacional imediata
- Necessidade de recalibragem do capital de giro
- Ajuste em contratos e políticas comerciais
- Revisão de prazos médios de recebimento e pagamento
- Potencial aumento da dependência de crédito bancário
Empresas com ciclos financeiros longos ou margens reduzidas podem enfrentar maior pressão.
Efeitos indiretos na gestão empresarial
Além da questão financeira, o split payment exige:
- Sistemas integrados e dados fiscais confiáveis
- Revisão de fluxos internos de apuração
- Simulações tributárias preventivas
- Reavaliação da precificação de produtos e serviços
A reforma não impõe apenas uma mudança tributária, mas uma mudança de governança.
O risco de subestimar o impacto
Um dos maiores riscos no atual cenário é tratar o split payment como mera alteração operacional.
A ausência de planejamento pode gerar descoberta tardia de insuficiência de caixa, reestruturações emergenciais, impacto na competitividade e pressão sobre margens já comprimidas.
Empresas que anteciparem simulações financeiras e revisarem seus modelos de gestão estarão melhores posicionadas para absorver a transição.
Conclusão: reforma tributária é também reforma financeira
O split payment representa uma mudança silenciosa, porém estrutural.
A reforma tributária não exigirá apenas adequação contábil ou jurídica. Exigirá integração entre áreas fiscal, financeira e estratégica. Mais do que discutir se a carga aumentará ou diminuirá, o ponto central passa a ser: a empresa está preparada para operar sob um modelo de arrecadação que altera o comportamento do seu próprio caixa?
Antecipação, planejamento e governança serão os verdadeiros diferenciais no novo ambiente tributário.

